Atmosfera teve seu IPO rejeitado; hoje, consolida o mundo das trouxas

EXCLUSIVO: O negócio bilionário de lavar roupa suja

Natalia Viri

 

Em tempos de Lava Jato, lavanderia tem aparecido com frequência no jornal — como sinônimo de lavagem de dinheiro.

Mas, enquanto o país se debate na crise (econômica e moral), sem muito alarde lavar roupa suja virou um negócio bilionário. Literalmente.

Dez anos depois de tentar sem sucesso ir à bolsa para consolidar o setor de lavanderias industriais no país, a Atmosfera — que já foi controlada pelo fundo Advent — acaba de fazer sua maior aquisição.

Sob o comando da rede francesa Elis desde 2014, a líder de mercado comprou a segunda maior lavanderia no país, a Lavebras, numa transação de R$ 1,3 bilhão que dará origem a uma empresa com 25% de share e faturamento anual de R$ 800 milhões.

Fundada em 1997, a Lavebras é controlada pelo empresário catarinense Ricardo Faria, com 69,5% das ações, e já tinha chamado a atenção de Edson Bueno, o fundador da Amil, que entrou no capital em 2013, com uma fatia de 30%.

 

O interesse de Bueno não surgiu à toa: a maior parte da receita da Atmosfera vem do segmento hospitalar, que representa 70% do negócio.

O restante da demanda vem de hotéis e indústrias, que precisam dar o tratamento correto ao uniforme de funcionários expostos a resíduos tóxicos, por exemplo.

Além de fazer toda a parte de lavagem, as empresas também alugam todo o e enxoval (lençóis, toalhas e uniformes) e fazem um serviço personalizado de logística, que vai do recolhimento adequado dos materiais até a entrega de enxovais esterilizados em centros cirúrgicos – com contratos de longo prazo que dão certa resiliência ao negócio.

Após concluída a compra, que ainda aguarda aprovação do CADE, Bueno continuará com 4,9% do negócio. Faria, por sua vez, sairá completamente da companhia. Além da Lavebras, ele é dono da Granja Faria, uma das maiores produtoras de ovos e pintos de corte do Brasil, com parcerias tanto com a BRF quando com a JBS. (A Atmosfera não divulgou quanto da transação é dívida e quanto vai parar nas mãos dos antigos controladores).

Bastante fragmentado e com potencial de crescimento graças à terceirização, o setor de lavanderias atraiu o Advent há 15 anos, em 2002. A intenção era consolidar o mercado, a exemplo do que aconteceu nos Estados Unidos, onde as quatro maiores do setor somavam 50% de participação.

O fundo, que chegou a ter 75% do capital da Atmosfera, tentou um IPO em 2007, mas fracassou.

Sem demanda, a operação foi cancelada às vésperas da precificação. A crise que levaria o capitalismo à beira da implosão já começava a dar as caras e forçar a redução de preços em várias operações.

O mercado se fechou, especialmente para operações menores — a Atmosfera faturava R$ 160 milhões à época. Em 2009, a empresa recebeu um aporte da Alothon, uma gestora de private equity especializada em middle market.

A porta de saída para o Advent e demais sócios apareceu só sete anos depois, em 2014, quando a francesa Elis comprou todo o negócio por um valor não divulgado.

Líder no mercado europeu, a Elis é listada em Bolsa e tem um valor de mercado de €2,35 bilhões (cerca de R$ 7,9 bilhões ao câmbio atual) e faturou €1,4 bilhão em 2015 (ou R$ 4,7 bilhões).

Para financiar a aquisição (all cash), a companhia está fazendo um aumento de capital de €325 milhões, que deve ser concluído esta semana. Parte deste aumento (€87 milhões) está sendo garantida por seus maiores acionistas, o fundo Eurazeo e o Credit Agricole.

A Elis transformou a Atmosfera numa máquina de aquisições: foram 15 em menos de dois anos. O faturamento saiu de R$ 266 milhões em 2014 para R$ 430 milhões ano passado.

Paralelamente, a Lavebras também vinha fazendo sua parte na consolidação do setor. Desde 2015, comprou 15 lavanderias de pequeno e médio porte. Em plena recessão, o faturamento saltou 30% no ano passado, para R$ 370 milhões.

A Atmosfera pagou 18 vezes o Ebit da Lavebras na aquisição — valor que cai para 8 vezes se considerado um crédito fiscal de R$ 300 milhões na operação, e que poderá ser compensado ao longo de cinco anos. (O 'Ebit' é uma métrica de geração de caixa.)

A fusão das duas empresas deve gerar sinergias significativas. A estimativa é que a reorganização industrial e logística, especialmente em São Paulo, Rio e Curitiba, onde há maior sobreposição, possa trazer R$ 60 milhões ao ano em economias a partir de 2019 (em 2017, seriam R$ 10 milhões em sinergias e em 2018, R$ 40 milhões).

Com a aquisição, a Atmosfera também vai ampliar significativamente sua presença no território nacional. Enquanto suas operações são mais concentradas no Sudeste, a Lavebras tem uma rede mais pulverizada e está em 17 Estados, incluindo todo o Centro-Oeste, o Sul e alguns Estados do Norte e Nordeste.

A Lavebras também tem uma exposição maior ao setor industrial — que exige mais personalização de acordo com cada negócio, e por isso, tem margens maiores. Clientes industriais representam 26% do faturamento, contra 17% na Atmosfera. A expectativa é que, em 2019, a margem Ebitda do negócio consolidado supere os 30%.

Depois da fusão, a segunda maior empresa do setor passa a ser a americana Alsco, que fatura cerca de R$ 200 milhões — um quarto da nova empresa combinada.

A KPMG estima que o mercado de lavanderia industrial no Brasil era de €900 milhões ao fim de 2014.

Seja no sentido figurado ou literal, o Brasil ainda tem muita roupa suja pra lavar.

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